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Vivemos a soma de todas as crises, em um momento da história no qual devemos tomar decisões importantes para a manutenção das condições de vida na Terra. Isso tem a ver com ameaças de escassez de alimentos em escala global; maior incidência de doenças; disputa por água potável e áreas habitáveis, mediante aumento da temperatura global e da elevação do nível do mar; entre outros problemas, previstos há décadas e que começam a dar sinais atualmente, como a maior incidência de eventos climáticos extremos. Atualmente, é possível prever com certa precisão a ocorrência de eventos climáticos extremos. Apesar disso, poucas cidades e regiões sob graves riscos possuem um sistema de alerta e/ou um plano de atuação para o caso deles ocorrerem. E se disséssemos a quem perdeu tudo em uma enchente, que talvez, isso pudesse ser evitado?

Os sistemas ecológicos são entidades biológicas que possuem processos internos e externos que interagem com o ambiente, e quando nessas trocas os ganhos e perdas estão equilibrados, considera-se que há um equilíbrio dinâmico. Nesse sentido, falar de desequilíbrio ecológico tem a ver com o desbalanceamento desse sistema de trocas, onde as perdas e ganhos de algum componente estão fora do ideal. Embora o conhecimento de que as plantas retiram água e sais minerais do solo e fazem fotossíntese, a associação de como estão envolvidas na ciclagem de nutrientes entre a superfície terrestre e a atmosfera ainda é confusa para a maioria das pessoas. Apesar de muitos alimentos serem frutos e sementes, é rara a compreensão de como sua origem está relacionada à interação das plantas com animais, que estão desaparecendo em função das mudanças no clima ou do excesso de uso dos agrotóxicos. Consequentemente, diante dos alertas para os efeitos do desmatamento nos regimes de chuva ou da ameaça de fome generalizada globalmente, não compreendemos a urgência de tomar decisões e pautar políticas públicas que evitem ou mitiguem os impactos desses processos. Ao mesmo tempo, é negada à população informações acessíveis que a permita ter consciência do risco que corre, e de como seus direitos são negados sistematicamente fazendo com que habite verdadeiras zonas de sacrifício.

Somente em 2022 ocorreram 27% das mortes causadas por chuvas nos últimos 10 anos. Em fevereiro desse ano, as chuvas que caíram no litoral norte de São Paulo estabeleceram um novo recorde: foram as maiores registradas no país em 24h, deixando 64 mortos e centenas de desabrigados. Na região Norte, seis estados enfrentam situações de emergência devido às fortes chuvas combinadas com as cheias dos rios. Em Rio Branco, no Acre, 30 bairros foram atingidos por alagamentos depois de cair 75% do esperado para o mês em apenas 24h, sendo considerado um evento climático extremo. Em Manaus, capital do Amazonas, vídeos que circulam nas redes sociais mostram casas arrastadas pela água. No Maranhão, seis vítimas fatais foram registradas com mais de 3 mil pessoas desabrigas ou desalojadas. Na região sudeste do Pará, o rio Tocantins dobrou de profundidade e as enchentes em cidades como Marabá já desabrigaram e desalojaram mais de 2 mil pessoas, algumas ilhadas nos telhados das próprias casas.

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. A frase do antropólogo Darcy Ribeiro descreve fielmente o que se observa há décadas no país e não parece que vai melhorar. A maioria da população sai da escola, da educação básica, sem conseguir correlacionar os conteúdos trabalhados em sala com o seu cotidiano. Isso ficou evidente não apenas no negacionismo diante dos riscos de contaminação da pandemia, como também na eleição pelo voto popular de um governo autoritário e neofascista que aprofundou desigualdades e desmantelou tudo o que pôde em 4 anos. O conflito de interesses econômicos também alimentou – e alimenta – o negacionismo em torno das consequências da crise climática.

Durante o governo Bolsonaro 93% das verbas destinadas para adaptação às mudanças climáticas foram cortadas, o desmatamento atingiu um nível recorde e a propaganda negacionista tomou fôlego nas mais variadas instâncias de poder. Na semana passada, há dois dias da data em que se comemora o dia mundial da água (22/03), o Painel Internacional Intergovernamental do Clima lançou seu último relatório-síntese onde os cientistas reafirmam a emergência em se adotar medidas para enfrentamento das mudanças no clima, intensificadas desde o aumento das emissões de gases do efeito estufa, a partir da Revolução Industrial, com mudanças nos hábitos de consumo, na exploração dos recursos, conversão e destruição dos habitats pelos mais variados usos da terra – Capitalismo.

Apesar da ênfase dada a crise climática, o equilíbrio de condições para manutenção da vida na Terra vai muito além da estabilidade do Clima. Há nove limites a serem observados. Em quatro dos limites planetários, as zonas seguras já foram ultrapassadas, e em outros dois, as informações disponíveis sequer possibilitam o estabelecimento dos limites de risco e segurança. O declínio da biodiversidade é um outro limite em que a zona segura foi ultrapassada, o que se reflete em várias ameaças relacionadas aos serviços ecossistêmicos – benefícios que os seres humanos obtêm dos ecossistemas – como é o caso da polinização, processo de fertilização das flores, que gera frutos e sementes em pelo menos três quartos dos cultivos globais. O desaparecimento e a extinção de polinizadores estão relacionados ao aumento da temperatura global, a destruição dos habitats naturais e ao uso excessivo de agrotóxicos. O desaparecimento desses organismos não apenas ameaça setores econômicos relacionados à agricultura, como pode provocar fome generalizada em uma escala sem precedentes no mundo.

Atualmente, o governo Lula tem o desafio de recuperar o tempo perdido na construção de alternativas para enfrentamento das mudanças climáticas. As ações iniciais já indicam avanços na construção de caminhos, no entanto é necessário acompanhar e avaliar a efetividade das alternativas propostas. Apesar do Mercado de Crédito de Carbono, por exemplo, figurar entre as principais apostas do governo, vale ressaltar que essa é uma alternativa capitalista, que retira a soberania de povos sobre seus territórios para que nações ricas continuem a emitir carbono em suas atividades. É preciso urgentemente um trabalho de sensibilização da população quanto aos seus direitos, bem como, das consequências das alternativas propostas. Além disso, é necessário garantir que compromissos de redução do desmatamento acompanhem o de restauração de ecossistemas e reflorestamento, e que as demais alternativas, sejam pautadas pela equidade e justiça social, reparando as vítimas do racismo ambiental nas cidades, no campo e nas florestas. O sistema capitalista vem há séculos lucrando com a exploração de pessoas e da natureza, alimentando a separação dos seres humanos dos ambientes onde vivem, assim como o consumismo e o individualismo. Os cenários futuros nos impõem urgência nas tomadas de decisões e, mais do que nunca, devemos denunciar as mazelas de um sistema que privatiza lucros e socializa prejuízos de forma escandalosamente desigual. A barbárie chegou, mas ainda é possível evitar a extinção. Não haverá chances se estivermos isolados. O futuro exige coragem e organização coletiva, pois essa não é uma missão de heróis, mas de revolucionários.

Eline Garcia – Ecóloga, Educadora Popular e Militante Ecossocialista da APS

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