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7º CONPSOL: não é apenas o futuro do PSOL que está em jogo, mas sua história.

O 7º Congresso Nacional do PSOL se aproxima. Os debates, naturalmente, se intensificam e umas das principais polêmicas é se lançamos uma candidatura própria do PSOL em 2022 ou se já apoiamos Lula desde o primeiro turno. Nós do “PSOL QUE OUSA LUTAR” defendemos que, a exemplo do que fizemos desde 2006, tenhamos candidatos/as próprios a todos os cargos majoritários. Há companheiros e companheiras alegando que não devemos tratar disso agora. Ocorre que o debate já está posto e não fazê-lo só nos enfraquece politicamente pois, não se trata de uma questão meramente eleitoral, se trata de construir uma alternativa programática para a crise sanitária, econômica, política e ética que vivemos. Um programa democrático, popular, radical, anticapitalista, feminista, indígena, antilgbtqfóbico, antiracista e ecosocialista.

Há acordo geral de que precisamos unificar as lutas contra o governo Bolsonaro, mas não há discordância se essa unidade também precisar ser feita no campo eleitoral. A rigor esse tema esconde outras polêmicas que deixam de ser travadas de forma explícita para se esconder em táticas e estratégias difusas. O PSOL QUE OUSA LUTAR defende a mais ampla unidade de ação contra Bolsonaro. Estamos nas ruas e em todas as lutas contra Bolsonaro sem qualquer sectarismo, defendendo a vida contra sua necropolítica.  Todos e todas que estejam pelo fim do governo genocida são bem-vindos. Partidos de centro, de direita, liberais, movimentos sociais e de luta contra a opressão, de bairros ou comunitários sempre serão recepcionados com serenidade. Essa tática, comumente denominada de Frente Única, não é nova entre os revolucionários e geralmente é usada em situações de enfrentamento a um inimigo comum. Quanto a isso não há, ou não deveria haver, grandes diferenças políticas.

Bolsonaro é uma ameaça real à frágil democracia (burguesa) em que vivemos. Diariamente ele lança ataques aos direitos sociais, às instituições do regime e à classe trabalhadora. Tem que ser impedido o quanto antes e essa é a principal tarefa dos movimentos sociais em nosso país. Por isso defendemos o Impeachment Já de Bolsonaro e Mourão. Contudo fazer o debate político/eleitoral não significa submeter nossas lutas ao calendário das eleições de 2022, como querem algumas das principais lideranças políticas do país. Querem desgastar Bolsonaro, mas não querem que ele caia agora, tudo para que quando chegarem as eleições, seja mais fácil derrotá-lo. Lula é um dos principais defensores dessa tese.

Os principais institutos de pesquisa do país indicam que, pelo menos nessa quadratura, Bolsonaro experimenta uma crescente perda de apoio e popularidade. Está mais fraco do que quando assumiu. Isso não significa que seja menos perigoso pois, mesmo isolado, ele vai sempre flertar com o golpismo, mas não podemos abstrair o fato de que está perdendo apoio a olhos vistos pois esse fato é relevante para qualquer análise de conjuntura.

 Uma pergunta se impõe: essa frente única contra Bolsonaro precisa se transformar em uma ampla frente eleitoral que inclua setores da burguesia liberal e de direita? Podemos subir num palanque com Rodrigo Maia e João Dória? Com Helder Barbalho e Renan Calheiros? Se não, qual nosso limite? Defender uma candidatura do PSOL é sectário e contraditório com a unidade de ação contra Bolsonaro?  É sobre isso que queremos nos deter.

Várias companheiras e companheiros, dentre eles os das correntes Primavera e Resistência, defendem que Lula seja nosso candidato à presidência. Os camaradas da Resistência afirmam que: “o futuro do PSOL está em questão (…) os filiados definirão se o partido se colocará como instrumento útil para derrotar Bolsonaro nas lutas e nas eleições, defendendo a construção de uma frente de esquerda. Ou se, ao contrário, optará pela linha do isolamento, priorizando as diferenças dentro do campo da esquerda, ao invés de privilegiar a unidade antifascista”. Muito importante que tais camaradas primem por se preocupar com o futuro do partido. Mas, tão importante quanto proteger nosso futuro, é preservar nossa história. E essa deve ser uma preocupação de toda a militância, mesmo daqueles recém filiados. Não se constrói futuro sem preservação de nosso legado. E o legado do PSOL, a despeito de nossos muitos e importantes erros, é marcado por inegáveis acertos políticos e por uma ousadia que não pode se perder.

Os companheiros da Resistência dizem que lançar uma candidatura própria do PSOL nesse momento pode significar um “grave retrocesso”. Afirmam ainda que: “não concordamos com a política de alianças do líder petista, que visa, outra vez, costurar acordos com setores do centrão e da direita tradicional. Sabemos que essas mesmas alianças nos governos petistas bloquearam mudanças estruturais e abriram portas para o golpe da direita” (sublinhado nosso). Em outro texto afirmam: “a Frente Única precisa do PT, ainda que a direção do PT não precise e nem queira a Frente Única. Nosso dever é fazer o chamado paciente a essa unidade, nos dirigindo tanto à base, quanto à cúpula do PT, já que a primeira dificilmente vai se mover com força sem o aval de sua direção”.

A tática de fazer “chamados permanentes” à direção do PT, usada exaustivamente por partidos como o PSTU, já caducou e parece não surtir o menor efeito prático, principalmente se você não chama as bases a romperem com essa direção cuja estratégia (e isso a própria Resistência reconhece) “abriu as portas para o golpe de direita” e prioriza alianças fisiológicas com partidos da direita tradicional e do centrão. Toda a tradição do socialismo revolucionário reconhece como indispensável, a qualquer momento, mesmo em situações de Frente Única, tratar de desmascarar as direções traidoras para as suas próprias bases. Desconhecer esse fato só vai criar ilusões de que essas direções podem, espontaneamente, romper com as suas práticas contrarrevolucionárias e acatar nossos insistentes “chamamentos”.

É pouquíssimo provável que Lula venha para uma frente de esquerda, ele vai optar por atrair a direita, a centro-direita e o centrão. Ou os companheiros acham que Lula vai preferir o PSOL e o PSTU ao PP ou MDB? Jamais. Seu fazer político, sua história e suas movimentações atuais comprovam isso. Ser sabedor dessa estratégia e não alertar as massas e as bases petistas para esse fato, beira a desonestidade política. Não será capitulando ao pragmatismo petista que nós atrairemos as bases do PT para uma política mais consequente. Não será escondendo a nossa caracterização da direção petista que ganharemos a sua confiança. E se Lula não topar se afastar dessa canalha política e fizer um “chamado” ao PSOL que se some a essa frente eleitoral que inclua a direita, qual posição os companheiros vão adotar? Ficar ou romper com Lula?

Dizem os companheiros e companheiras: “nós sabemos que, em sua esmagadora maioria, esses trabalhadores não olham para o PSOL como uma alternativa de poder neste momento. Olham para Lula e o PT. É aqui que a política da Resistência dá um passo a mais e diz aos trabalhadores: ‘Vocês querem derrotar Bolsonaro. Nós do PSOL também. Vocês acham que Lula é a única figura capaz de fazê-lo. Nós não vamos atrapalhar (grifo nosso) dividindo a esquerda, mas alertamos: se Lula repetir a fórmula de 2002 e construir uma frente com partidos de direita, isso só vai abrir o caminho para a volta da direita ao poder, ainda que se derrote Bolsonaro em 2022’.” Essa assertiva é extremamente confusa. Fazem uma “quase correta caracterização” da política de Lula, mas se submetem a uma opinião do senso comum de um segmento da classe trabalhadora. Onde foi que as companheiras e companheiros leram que se define um programa, uma estratégia ou tática se submetendo ao senso comum? Podemos e devemos levá-lo em consideração, mas nos submeter a ele para não “atrapalhar” uma política atrasada e equivocada é, isso sim, um grave retrocesso na luta pela consciência da classe trabalhadora. É preciso que os companheiros e companheiras atentem para o fato de que nem todas as críticas ao PT, que eles chamam de antipetismo, são feitas pela direita. Há uma importante camada da vanguarda que viveu os 13 anos de governo do PT e faz críticas pela esquerda. Dialogar com esse segmento é indispensável, e não faremos isso estigmatizando que todas as críticas ao PT são de direita.

O PSOL se construiu ao longo desses anos todos se inserindo organicamente na luta concreta de nosso povo. Não somos apenas uma legenda eleitoral (embora algumas correntes trabalhem com essa lógica), somos um partido vivo. Não se conta a história recente de nossa classe e de nosso povo, sem incluir o PSOL. Isso é motivo de muito orgulho e foi uma dura conquista. Nos processos eleitorais, desde 2006, o PSOL sempre se apresentou de cara própria. Isso nunca foi um erro. Isso nunca foi sectário. Manter nossa identidade política não rompe o diálogo com nenhuma vanguarda, tudo depende de como fizermos isso. Em 2018 saímos com nossa candidatura no 1º turno e no 2º nos somamos de corpo e alma ao “vira voto”. Nunca fomos hostilizados, pelo contrário, éramos elogiados e recepcionados com efusividade pelos companheiros e companheiras do PT.  Se a eleição segue sendo em dois turnos não há explicação cabível para uma mudança de tática. Não foi “culpa” do PSOL a vitória de Bolsonaro. Como os próprios camaradas da Resistência dizem, a maior parte dessa responsabilidade recai justamente sobre a direção do PT. E não podemos nem devemos nos negar a fazer esse debate com a vanguarda, incluindo aí a vanguarda petista.

Não confundamos Frente Única contra Bolsonaro com Frente Eleitoral Ampla. São dois processos conectados, mas profundamente distintos com dinâmicas e consequências completamente diferentes. Defender que o PSOL dê continuidade à sua vitoriosa estratégia de construção não é sectário nem isola o partido, ao contrário, nos permite seguir crescendo com independência política e ganhando o respeito da vanguarda e de amplas camadas das massas populares. Se e quando houver necessidade de apoiar uma candidatura contra Bolsonaro, saberemos, como já fizemos antes, construir essa tática sem sermos sectários ou oportunistas. Prezar pelo futuro de nosso partido e de nossa classe sim, mas sem esquecer nossa história.

Fernando Carneiro

Vereador PSOL/Belém

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