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Um debate fraterno e franco sobre a saída de Freixo do PSOL

Marcelo Freixo deixou o PSOL, entrou no PSB. É uma grande perda. Freixo encarnou como poucos nosso projeto partidário. Sua cara era a cara do PSOL, suas lutas, as nossas. Enfrentou com destemor as milícias no Rio de Janeiro e ousou levantar bem alto a bandeira dos direitos humanos. Sacudiu a capital fluminense em 2016 ao apresentar um programa radicalmente democrático de enfrentamento da crise econômica e social que até hoje persiste no Rio de Janeiro. É um quadro político querido pela esquerda e muito respeitado, inclusive por seus oponentes.

Mas ele, em uma decisão unilateral, se desligou do PSOL. Os motivos principais são exclusivamente eleitorais. Acredita que o PSOL não amplia na luta contra Bolsonaro. Segundo ele “o nosso dever histórico é derrotar Bolsonaro nas urnas e o bolsonarismo enquanto projeto de sociedade”. Diz ainda “é urgente a ampliação do diálogo e a construção de uma ampla aliança com todas as forças políticas dispostas a somar esforços na luta contra o bolsonarismo”. Freixo sempre usou as palavras com maestria, logo, o que ele diz não é fortuito e reflete uma construção teórica e política muito bem elaborada.

Derrotar Bolsonaro é urgente, todos sabemos. Mas reduzir isso a um mero revés eleitoral, “nas urnas”, é uma tremenda distorção política. Esse raciocínio simplista, que parte de uma premissa verdadeira (necessidade de derrotá-lo), mas que aponta como única alternativa o calendário eleitoral, não é aceitável. O principal foco de todos aqueles e aquelas que estão contra Bolsonaro hoje não mira as urnas em 2022, mas as multitudinárias manifestações que varreram o país recentemente. Antes mais nada é preciso derrotar Bolsonaro nas ruas, e isso não é romantismo. Acabamos de sair de uma fantástica jornada de manifestações no dia 29 de maio. Outra jornada já está marcada para 19 de junho. Milhares de pessoas foram e irão às ruas em uníssono exigir o “Fora Bolsonaro”. Cada uma dessas manifestações faz estremecer as bases de sustentação do governo. Muito mais que as movimentações partidárias. Isso a história já nos ensinou: o que causa fissuras e temor nos governos é o povo na rua. Nosso termômetro foi e será a luta real de nosso povo.

Freixo faz um movimento inverso ao que fizeram Glauber e Erundina, que vieram para o PSOL e deixaram o PSB quando este decidiu apoiar Aécio Neves em 2014. Penso que a história já mostrou quem fez a movimentação correta.
A luta contra Bolsonaro não pode se resumir às eleições, até porque o bolsonarismo é muito mais que uma expressão eleitoral: é um fenômeno social, político e militar que abraçou a plataforma ultra neoliberal. Sua derrota eleitoral não necessariamente significa sua derrota política, assim como nossa vitória não virá se abandonarmos nosso programa para atrair o centro e a direita tradicional (Maia, Paes, Jungman e companhia).

É claro que, se não conseguirmos derrotá-lo antes das eleições (infelizmente o cenário mais provável), precisaremos debater uma tática específica para as eleições, principalmente no segundo turno, mas desistir previamente de nosso programa e de fazer a luta direta, quando ainda falta mais de um ano para a eleição, é um erro que não podemos cometer. Por fim não podemos nos esquecer que as eleições, dentro de um estado capitalista, são um jogo inventado e controlado pela burguesia, nossa arena é outra.

Freixo fará falta. Mas o PSOL é muito maior que seus parlamentares ou dirigentes. Nosso partido, inserido até a medula em todas as lutas concretas de nosso povo, é construído por milhares de militantes dedicados e conscientes de seu papel histórico. Não há luta contra o preconceito, contra o racismo, contra o machismo e a lgbtfobia que não tenha companheiras e companheiros do PSOL na linha de frente. A luta contra a exploração, pelo direito à moradia, contra o desmatamento, em defesa da vida, da vacina e do SUS faz parte de nossa ação cotidiana.

Vencer eleições é bom, mas o PSOL é muito mais que uma legenda eleitoral. A grande batalha é para ganhar a confiança e consciência dos milhões de trabalhadores e trabalhadoras que labutam diariamente para sobreviver em meio à pandemia e ao caos imposto pela sociedade do capital. Nosso horizonte segue sendo uma sociedade socialista. Disso não abrimos mão.

Fernando Carneiro
Dirigente Nacional do PSO

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