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O Ninho do Urubu e os direitos trabalhistas

O Ninho do Urubu: o lugar da oportunidade e o retrato do desrespeito aos direitos trabalhistas. 

* Caroline Lima. Num país marcado pela desigualdade social e pelo genocídio da juventude negra, ser jogador de futebol significa

uma oportunidade em meio a pobreza e a falta de políticas públicas. Certamente essa foi a motivação das famílias que deixaram seus filhos partirem para a cidade do Rio de Janeiro atrás de um sonho e da expectativa de dias melhores.

Na madrugada do último dia 08 de fevereiro de 2019, um incêndio ceifou 10 vidas, 10 meninos que morreram carbonizados. Os 10 jogadores pertenciam aos times juniores do Flamengo, todos tinham empresários e o clube carioca era o dono dos seus “passes”. Esses adolescentes representavam o sustento para muitas dessas famílias e, se vendiam sua força de trabalho, logo havia ali uma relação entre patrão e empregado.

Precisamos transformar a dor e a comoção da perda em indignação. A tragédia no Ninho do Urubu não foi uma fatalidade, foi um acidente de trabalho causado pelas péssimas condições de vivência e a não existência de garantias mínimas de segurança para os jogadores dos times juniores do Flamengo. É importante registrar que, dos 10 adolescentes mortos, oito eram negros e todos filhos de trabalhadores (as) das periferias brasileiras. Esse é o lugar do menino pobre nos grandes clubes de futebol.

O incêndio no Ninho do Urubu revelou as reais condições em que vivem os jogadores de base no futebol brasileiro e evidenciou como o desrespeito aos direitos e à segurança do trabalho são nocivas à vida da classe trabalhadora. E mostrou como um acidente de trabalho tem o poder de destruir famílias e de matar os sonhos de crianças e adolescentes.

No ano de 2017, o Governo golpista de Temer aprovou a Reforma Trabalhista, uma contrarreforma que dificultou o acesso a direitos básicos de milhares de trabalhadores (as), colocou mulheres gestantes em lugares insalubres e flexibilizou direitos. E o Governo Bolsonaro extinguiu o Ministério do Trabalho, desestruturando a Justiça do Trabalho. As esferas responsáveis por apurar e julgar os abusos sofridos pelos (as) trabalhadores (as) ou foram extintos, flexibilizados ou estão sendo desestruturados, o seja, as famílias dos jogadores mortos neste acidente de trabalho iniciam a luta por direitos e indenizações em grande desvantagem.

Toda solidariedade às mães, pais, avós e a todos os familiares que perderam seus filhos, que viram seus sonhos tornarem-se cinzas. E para os responsáveis por essa tragédia nenhum minuto de silêncio.

* Caroline Lima é Professora da UNEB e Doutoranda em Ciências Sociais – UFBA

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