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Resolução de Conjuntura Internacional da APS/PSOL

"É preciso travarmos, em cada luta contra a exploração econômica, as opressões culturais, a dominação política e dependência nacional, uma batalha pela conscientização política dos trabalhadores e de todo o povo oprimido em nível internacional".

Resolução de Conjuntura Internacional. APS – Ação Popular Socialista – PSOL. CNAPS – junho de 2017

 

“TODOS OS INIMIGOS PODEM SER VENCIDOS”, Fidel Castro

 

Essa contribuição é dedicada à Revolução Cubana

 

Nossa luta é internacional

  1. Num mundo cada vez mais conectado, onde as informações circulam em tempo real, tem-se a impressão que as fronteiras estão desaparecendo e que a globalização é um fenômeno progressivo. Nada mais distante da realidade. Ao invés de pontes, o mundo discute a construção de muros; em vez de solidariedade, xenofobia; no lugar da igualdade, preconceito e discriminação. O capitalismo mostra sua verdadeira face, cada vez mais desumana e cruel. A possibilidade da barbárie é muito mais que uma frase de efeito.
  2. Aos internacionalistas cabe a difícil, mas indispensável tarefa de ressaltar a importância da análise da conjuntura internacional e da construção de ações e organismos que pratiquem efetivamente o internacionalismo. Tal missão não pode ser entendida como uma mera formalidade metodológica. O verdadeiro internacionalista sabe que as particularidades nacionais e regionais são indispensáveis a qualquer análise nacional ou continental. Sabe ainda que esses fatores devem ser considerados pelos revolucionários como componentes obrigatórios de qualquer estudo, mas sabem também que a realidade internacional é muito mais que a soma das realidades nacionais. De forma dialética a conjuntura mundial se manifesta de modo desigual e combinado.
  3. Precisamos entender que as medidas propostas e adotadas pelo governo Temer estão inseridas no receituário neoliberal clássico, que é aplicado em diversos países pelo mundo afora. A divisão internacional do trabalho e a internacionalização da crise e da resistência são fenômenos determinantes e que precisam ser estudados por todos os que se reivindicam revolucionários e, portanto, internacionalistas. Não há como entender, por exemplo, a profundidade da crise econômica no Brasil sem o estudo dos impactos da crise na China e da queda no preço das commodities, que durante anos embalaram um certo crescimento da economia brasileira. Mais que nunca, a luta da classe trabalhadora e dos explorados assume contornos mundiais.
  4. Ser internacionalista no Brasil tem várias dificuldades adicionais. Somos os únicos na AL a falar outra língua, temos a economia mais forte e somos o maior país do continente. Culturalmente, temos semelhanças e diferenças, mas somos latino-americanos. Entretanto, há pouco sentimento de solidariedade com os conflitos na região, o que é extremamente pernicioso e retrógrado e sugere uma pretensão de superioridade do Brasil em relação aos demais países do nosso continente. A depender da conjuntura, o Brasil tem tido uma maior ou menor influência na região. Recentemente, através do BNDES, patrocinou diversas obras entre 2006 e 2014, muitas obras no exterior. Venezuela, Argentina, República Dominicana e Cuba estão entre os investimentos mais elevados. Mas eles não se deram dentro de um espírito internacionalista anti-imperialista. Ocorreram para beneficiar grandes empresas que financiavam os partidos governistas e também, na maioria dos casos, visando criar uma infraestrutura para fortalecer a mineração e o agronegócio no Brasil e exterior. O internacionalismo pressupõe a solidariedade internacional entre os trabalhadores e demais setores oprimidos, mas a simples solidariedade não significa ser internacionalista: precisamos, além de entender a importância da análise sob a ótica internacional, trabalhar para construir ações conjuntas (como a greve continental na Europa em 2012). A tarefa histórica de construção de algum tipo de organização internacional que articule os revolucionários em todo o mundo, mesmo que a conjuntura não aponte para essa possibilidade no momento, não pode ser menosprezada. Lembremos que mesmo no calor dos eventos que levaram ao triunfo da Revolução Russa e no período posterior de guerra civil, os revolucionários russos dedicaram-se à construção da Internacional Comunista.

 

A situação internacional segue sobre o signo da crise econômica

  1. Uma análise da situação mundial precisa identificar as características e as tendências mais gerais do período, visando principalmente orientar a atuação dos revolucionários. É preciso avaliar a situação das classes no tabuleiro mundial, a correlação de forças, a economia e a política, a fim de ter uma base mais cientifica para a nossa intervenção política. Mas, ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que a dinâmica real da luta de classes não pode ser apreendida de conjunto. A realidade é sempre mais complexa e diversa que qualquer estudo. Seria irreal pretender arrolar essa tendência geral num quadro de profundas diferenças regionais e mesmo nacionais. Esses exercícios de aproximação servem principalmente para identificar fenômenos na esfera da macropolítica e não podem ser entendidos como manuais infalíveis. Ademais, a realidade internacional é sujeita a alterações permanentes. Portanto, é nesse contexto que buscamos identificar, à luz do marxismo, algumas dessas tendências gerais. É para isso que serve uma análise de conjuntura internacional.
  2. Nas resoluções de nosso V ENAPS (maio de 2012), afirmamos que estamos diante de um processo de crise mundial múltipla, e não somente econômica, que se caracteriza, sinteticamente, por vários elementos: “Vivemos um período de Crise Estrutural crônica do capital em nível mundial, que é um processo de crise múltipla: econômica, social, ambiental, energética e alimentar, com fortes componentes políticos e culturais. Hoje, ela se situa principalmente no centro capitalista, como os EUA e a Europa, mas atinge todo o planeta. Não há sinais de saída “virtuosa”. Observamos o enfraquecimento econômico relativo dos EUA como centro imperialista unipolar e a emergência da China”.
  3. “Neste período, o capital realizou muitas ações, usou de vários artifícios e teve várias “oportunidades” para acumular e tentar superar a crise: o rompimento do Acordo de Breton Woods; a ofensiva neoliberal; o keynesianismo industrial militar; a revolução tecnocientífica; a entrada do capital em novos setores econômicos e regiões geográficas do mundo; maior ataque à natureza com destruição ambiental; fim dos regimes burocráticos na URSS e no Leste Europeu; e a conversão capitalista da China. Mas o resultado foi o aprofundamento da crise”.
  4. Na resolução de nossa Conferência Nacional (março de 2013) reafirmamos que “nada disso evitou o agravamento da crise estrutural do capitalismo. Todas as medidas tomadas só adiaram qualquer resolução estável dos impasses e geraram o agravamento das tensões sociais que vão se expandindo por todos os continentes, inclusive com fortes possibilidades de novas guerras regionais.
  5. Continuam os ataques ao povo trabalhador de todo o mundo. A democracia representativa burguesa vem sendo substituída por um simulacro de democracia totalmente subordinado aos interesses do capital, especialmente de sua fração financeira. Greves, paralisações, desemprego, violência, suicídios vão se espalhando. Os trabalhadores perdem direitos e os cidadãos perdem liberdade.
  6. A resistência cresce, mas a fragmentação da esquerda e as diversas formas de contenção das organizações populares geram impasses para o desenvolvimento das lutas na Europa.”
  7. Nas resoluções do VI ENAPS (agosto de 2015) afirmamos que “Dentro desse quadro de crise, o mundo passa por uma reconfiguração imperialista – tendo como pano de fundo o atual estágio da crise estrutural do capital – que é consequência da quebra da unipolaridade imperialista baseada nos EUA. De um lado, vemos a ascensão da China numa aliança estratégica com a Rússia, e se articulando com outros estados. Por outro lado, os EUA vivem um processo de enfraquecimento econômico e vinham buscando consolidar um bloco com a Europa. Esta, por seu turno, também vive uma profunda crise e dificuldades para manter o grau de unidade existente”, como vimos no caso da crise na Grécia e agora especialmente com o Brexit.
  8. Hoje, os principais indicadores apontam para uma redução do PIB mundial, a queda do preço das commodities, a manutenção do desemprego, da inflação, do endividamento público e da tendência da queda da taxa de lucros. A solução encontrada pela burguesia não chega a ser exatamente uma novidade: como sempre, descarrega sobre a classe trabalhadora o ônus da crise que o capital engendrou. Na prática, isso significa a redução de políticas públicas e mais privatizações, ataques aos direitos sociais conquistados a duras penas, incremento do banditismo do capital financeiro através do mecanismo das dívidas públicas, entre outras “medidas de austeridade”.
  9. Essas “soluções” estão sendo aplicadas na Europa, na África, na Ásia, na América do Norte e na América Latina, ou seja, são, guardadas as inevitáveis diferenças de ritmo e intensidade, medidas adotados pelo capital em nível mundial e respondem hoje pelo nome de neoliberalismo. O ataque aos direitos sociais, até então limitado aos países periféricos, atinge hoje todos os países capitalistas, principalmente os mais desenvolvidos. Estamos falando de potências mundiais como Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Japão e o próprio bastião do imperialismo mundial, os EUA.
  10. Evidente que esses ataques implicam modificações na esfera da política. Em geral, temos visto um fenômeno em que sai de cena o setor mais liberal e democrático da burguesia e em entra em cena o setor mais conservador e reacionário. A eleição de Donald Trump nos EUA e o avanço da direita no continente europeu, alimentado e retroalimentado pelo Brexit e pela crise dos refugiados, são exemplos disso.
  11. Outra característica do período é o aumento constante da concentração da riqueza mundial. O relatório de 2016 da ONG britânica Oxfam, baseado em informações coletadas junto ao banco Credit Suisse, aponta, pela primeira vez, que a riqueza acumulada pelo 1% mais rico da população mundial equivale à riqueza dos 99% restantes. O relatório afirma ainda que as 8 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo que toda a metade mais pobre da população global, ou seja 3,6 bilhões de seres humanos.
  12. Enquanto isso, China e Rússia consolidam uma posição de disputa com os EUA. A China deve reduzir as expectativas de crescimento do PIB em 2017, mas ainda assim coleciona invejáveis índices na casa de 6 a 7% ao ano e permanece como segundo maior PIB do mundo (de acordo com os critérios do FMI, baseado no dólar), atrás apenas da economia norte americana. Mas, segundo os métodos do Banco Mundial (baseado na economia real), já é o maior PIB nacional. A impensável e improvável aproximação entre a Casa Branca e o Kremlin, que aconteceu durante o processo eleitoral nos EUA, quando Putin declarou apoio explícito a Trump, precisa ser analisada com mais cautela e já está tendo uma configuração menos amigável após a posse do bilionário e ex-apresentador de reality show à frente da maior potência imperialista do mundo. O conflito de interesses tende a se impor.
  13. Na outra ponta desse quadro está o aumento da resistência do povo e da classe trabalhadora mundial. O continente europeu tem sido sistematicamente sacudido por poderosas mobilizações e greves. França, Itália, Espanha e Portugal têm dando importantes exemplos na luta contra os pacotes de austeridade. Além da luta em cada país, há um crescente movimento que busca construir organizações e ações unificadas no continente (já vimos manifestações e mesmo greves de caráter continental). Essa ação é dificultada pelo processo de cooptação das organizações tradicionais, que quebrou seu caráter anticapitalista, fortaleceu o reformismo, o corporativismo e as direções burocratizadas que ainda controlam a maioria dos sindicatos e centrais sindicais. Essa resistência também enfrenta um processo ainda limitado de construção de novas vanguardas sociais e políticas. Contudo, essa situação começa a mudar, mesmo não sendo de modo linear.
  14. Na China, onde o capitalismo foi restaurado à custa da superexploraração da classe trabalhadora, assistimos a um impressionante aumento das lutas. Em 2011 foram registradas 185 greves. Esse número passou de 1.300 em 2015, demonstrando que os 700 milhões de trabalhadores e trabalhadoras chineses não estão mais dispostos a suportar passivamente as jornadas extenuantes e os baixos salários.
  15. Após as ondas de lutas na América Latina, que culminaram com a conquista, ainda que com ambiguidades, de governos com viés anti-imperialista, cujo exemplo mais simbólico foi o de Chávez na Venezuela, o que predomina é a crise econômica e política, em parte alimentada pela influência direta do governo dos EUA (caso da Venezuela) ou de frações do capital estadunidense.
  16. Entre o ano de 2002 e o início da crise mundial de 2008 o continente latino-americano experimentou um relativo crescimento assentado no processo de reprimarização da economia em função da alta das commodities, principalmente minério, soja, gado e também petróleo. Alguns países, como o Brasil, ainda conseguiram retardar os efeitos da recessão mundial por algum tempo. Entretanto, a partir de 2013/2014 a crise se instala com força total e o que vemos é a combinação explosiva de inflação com desemprego, chegando a patamares preocupantes e passando dos dois dígitos percentuais. Venezuela, Colômbia, Argentina e, em menor medida, Equador, seguem o mesmo diapasão e veem suas economias se afundarem. Segundo relatório da Cepal, o PIB da região cresceu apenas 1,1%, bem abaixo da média mundial, que girou em torno de 3%. Nesse mesmo período, Panamá e Republica Dominicana cresceram 6%, e a Colômbia, em 2016, apenas 2%.
  17. O componente político dessa crise foi o recrudescimento de uma direita que rompeu com a tendência anterior, de conquistas de governos relativamente menos autoritários. Há poucos anos assistimos a conquistas eleitorais importantes como os casos de Venezuela, Bolívia e Equador. Nesses países, principalmente Venezuela, as mobilizações foram mais intensas e levaram a governos mais à esquerda.
  18. O atual quadro de dominação imperialista aberto com a implementação do programa neoliberal tem como um dos elementos instituídos a política proibicionista chamada de “guerra às drogas”. A partir dos anos 80 sob o governo Reagan nos Estados Unidos as drogas passam a ser vistas como inimigo público número um do país, justificando a intervenção em diversos territórios, gerando altas taxas de violência, encarceramento e genocídio. Em duas décadas a população carcerária estadunidense quadruplicou, chegando a quase 2 milhões de presos no ano 2000; no Brasil esse contingente ultrapassa meio milhão de pessoas. Em toda a América Latina os dados referentes a problemas de saúde relacionados ao uso de drogas tornaram-se bem piores que antes desse processo recaindo principalmente nos setores mais vulneráveis, como pobres, negros e indígenas. O comércio de drogas, como qualquer atividade comercial no capitalismo, é altamente concentrador de riqueza. Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), o faturamento anual desse negócio chega a US$ 870 bilhões. A concentração no comércio de drogas ilegais corresponde a 1,5% do PIB mundial. Um negócio desse tamanho não pode existir sem a conivência e aliança de setores da burguesia. Urge a necessidade de construir uma nova política sobre drogas baseada no fim do proibicionismo, legalizando a produção, o comércio e o consumo de drogas, além do fim das intervenções políticas e militares nos diversos países afetados.
  19. Na América Latina, continuam pipocando as lutas de trabalhadores, juventude e povos indígenas. Por outro lado, na Venezuela, a morte de Hugo Chávez, com a subsequente entrada de Maduro na presidência, aumentou os sérios riscos para a continuidade do projeto bolivariano, que tem aprofundado suas contradições internas, mostrando a incapacidade das forças governantes gerarem uma verdadeira saída revolucionária para a crise e aguçando os interesses norte-americanos na região, visando desestabilizar e derrubar o governo. No caso da Bolívia e, principalmente, do Equador, importantes ambiguidades e vacilações geram fortes tensões com suas bases sociais de sustentação. Isso ocorre por conta da adoção de uma agenda “desenvolvimentista”, voltada para a exploração de recursos naturais, que é incapaz de romper com a dependência e o imperialismo, prejudicando amplos setores populares e colocando em questão o caráter e as perspectivas desses governos.
  20. No Brasil, Argentina e Uruguai o processo foi de um “neodesenvolvimentismo” ainda mais rebaixado e sem sustentação econômica e política, gerando profunda crise e criando as condições para a queda dos governos dos dois mais importantes países sul-americanos.
  21. De qualquer maneira, é inegável que estamos, na atual quadratura, diante de um processo de substituição desses governos por versões mais à direita. O golpe jurídico-parlamentar que conduziu Temer à presidência do Brasil é um exemplo dessa tendência. A vitória da direita no parlamento Venezuelano e de Macri na Argentina também são expressões desse projeto. A adoção de medidas privatizantes de empresas estatais e de ajustes na legislação trabalhista no Equador indica que mesmo os governos remanescentes estão se ajustando às medidas impostas pelo grande capital. Na Bolívia, depois de ser derrotado no referendo para um quarto mandado, o MAS, partido de Evo Morales, decidiu apresentar mesmo assim seu nome para as próximas eleições. Com aprovação popular em queda, mas ainda bem alta (49%), o governo de Morales experimenta desgastes, com acusações de corrupção e de má gestão dos recursos hídricos. Ainda assim segue em situação menos pior que a de seus vizinhos latinos. De qualquer maneira, a mobilização e as lutas de resistência seguem sendo uma constante em todo o continente.
  22. A situação na Colômbia envolve o desmonte da guerrilha das FARC e sua transformação em organização partidária legalizada. O acordo inicial foi rejeitado pela população em outubro de 2016, mas, depois de algumas modificações, foi ratificado pelo congresso colombiano. Isso ocorreu depois de 52 anos de uma guerra desigual, em que a burguesia colombiana e o imperialismo contaram com a repressão sistemática do estado que, além disso, dava suporte aos grupos paramilitares ilegais, vitimando mais de 250 mil colombianas(os) e desalojando mais de 5 milhões de pessoas. Entretanto, apesar do acordo de paz, intermediado pelos cubanos, ter sido saudado como um alívio positivo pelos setores mais conscientes do povo e pela grande maioria das organizações de esquerda do pais, os crimes cometidos pelo estado continuam impunes. Ademais, os riscos de eliminação física de lideranças populares de esquerda pelos paramilitares da direita continuam presentes.
  23. O México está vivendo um processo de poderosas mobilizações contra o “gasolinaço” (aumento do preço dos combustíveis), mas na verdade o que está em jogo é o desmonte e a privatização da PEMEX, a Petrobrás mexicana, e a submissão do governo de Peña Nieto ao novo governo estadunidense.
  24. O “fim da história” e a supremacia do império do capital, preconizados pelos arautos do capitalismo, não resistiram ao agravamento da crise estrutural do capitalismo a partir de 2008. O vaticínio de “Socialismo ou Barbárie” está mais atual que nunca: ou a classe trabalhadora avança e constrói, de forma consciente e determinada, o novo, a sociedade livre da exploração e da opressão do capital, ou a humanidade caminhará a passos largos para a destruição irreversível dos recursos naturais, transformados em simples mercadorias, e dos recursos humanos, cada vez mais vulneráveis às intempéries e “humores” de uma classe que se revela mesquinha e incapaz de pensar para além de seus interesses de classe. Num mundo em que a cada quatro segundos morre uma pessoa de fome, apesar de termos condições de alimentar com folga toda a população mundial, fica evidente que o problema é político e social, não de escassez.
  25. O marco geral da situação mundial parece ser justamente o aprofundamento dessa polarização: de um lado os ataques da burguesia aos direitos históricos conquistados pela classe trabalhadora, e de outro o incremento das lutas e da resistência dos povos e trabalhadores em nível internacional. Essas lutas estão sacudindo o status quo das direções tradicionais dos movimentos sociais, o que abre possibilidades à direita e à esquerda. Em algumas situações a direita e a extrema direita estão aparecendo como alternativa. Cabe aos ativistas sociais de esquerda e socialistas aproveitarem as possibilidades abertas com essa situação. Devemos disputar todos os espaços, inclusive os institucionais e eleitorais, mas restringir ou priorizar a disputa aos parâmetros estabelecidos pela classe inimiga é um erro imperdoável. A luta real se desenvolve na vida concreta, na luta por moradia, por emprego e por comida, saúde, educação e segurança. É aí que temos que estar, militando incansavelmente e buscando conscientizar e organizar a vanguarda social lutadora em seus organismos sindicais, estudantis, populares e identitários, mas fundamentalmente construindo a ferramenta revolucionária mais importante: o partido revolucionário.

 

Cuba pós Fidel: “o futuro não é mais como era antigamente!”

  1. A Revolução Cubana foi, sem dúvida, o fato mais importante para o continente latino-americano no século XX. O que começou como uma luta contra a ditadura de Fulgêncio Batista, o imperialismo e o latifúndio, culminou na expropriação da burguesia e se transformou numa revolução socialista. Essa verdadeira “revolução dentro da revolução” se deu durante o desenvolvimento da luta num processo profundamente contraditório e progressivo. As particularidades desse processo são muitas e a maioria já foi alvo de estudos detalhados. Uma dessas características mais marcantes diz respeito ao fato de a luta ter assumido a forma de guerrilha, que veio do campo para as cidades centrais, e ter sido dirigida não por um partido nos moldes “tradicionais” do marxismo, mas por um exército-partido. Essas duas características, bastantes distintas da Revolução Russa, tida como clássica, são fundamentais para entender o ulterior desenvolvimento da revolução cubana.
  2. A experiência cubana, acontecida no “quintal dos EUA”, se estendeu como um rastilho de pólvora, incendiando o continente. O impacto foi imediato e influenciou milhares de ativistas que se lançaram à luta em seus países. Evidentemente esse processo não passou despercebido pelo imperialismo estadunidense, que tratou de dirigir suas baterias para a América Central e Caribe e para a América do Sul. Os diversos golpes militares articulados numa aliança entre o imperialismo e as burguesias locais e participação direta da CIA, em nosso continente, no imediato período pós-revolução cubana, foram a resposta dos EUA e das burguesias internas, tanto aos processos reformistas, nacionalistas e revolucionários nacionais, como à revolução dirigida por Fidel, Cienfuegos e Che Guevara.
  3. Para enfrentar o bloqueio comandado pelos EUA, pouco depois da revolução, e evitar o isolamento, Cuba construiu uma aliança econômica e política com a URSS e outros regimes burocráticos do Leste Europeu, o que, mesmo garantindo uma independência em sua política interna e externa, gerou um novo tipo de dependência econômica. Por outro lado, o fim da URSS colocou Cuba numa situação de grande isolamento político e econômico, no qual até a capacidade de alimentar sua população chegou ao limite do mais básico. Diante dessa situação, a resposta do governo cubano foi a de, ao lado de um grande esforço de luta ideológica interna, para reforçar a capacidade de resistência do povo, dar início a reformas econômicas que, desde 1994, foram progressivamente abrindo a economia tanto para investimentos de grandes empresas capitalistas estrangeiras em alguns setores, como turismo, mineração e infraestrutura, assim como para um mercado interno pequeno burguês que, mesmo sob o controle do estado, tem progressivamente ampliado a propriedade privada burguesa no país. Mesmo assim, diferentemente do que ocorreu com o fim da URSS e a conversão capitalista da China, Cuba ainda tem conseguido preservar importantes conquistas sociais da revolução e o apoio da maioria do povo ao governo.
  4. Tudo isso aconteceu numa situação muito desfavorável e que ainda pode piorar, com a profunda crise que hoje atinge seu principal aliado atual (a Venezuela) e o golpe palaciano no Brasil – que, mesmo sem ter construído uma política externa verdadeiramente independente nem internacionalista, formou uma parceria econômica importante no período mais recente.
  5. Precisamos acompanhar esse processo, pois influenciará significativamente toda a América Latina. Tudo indica que a postura do novo presidente dos EUA, Donald Trump será de recrudescimento da violência contra Cuba. Suas declarações iniciais apontam para uma série de “exigências” ao governo cubano para que o processo de fim do embargo comercial prossiga. Outro ponto crítico do acordo diz respeito à base militar estadunidense em Guantánamo. Desde 1903 os EUA ocupam uma área de 116Km² numa região que era estratégica do ponto de vista militar. Em 2002, depois do ataque às Torres Gêmeas, o governo estadunidense construiu uma prisão em Guantánamo. Por não ser território dos Estados Unidos e nem estar subordinada às leis cubanas, a prisão não está sob a jurisdição dos EUA, nem de Cuba e nem da Comunidade Internacional. Na verdade é o exército estadunidense que governa Guantánamo. São quase seis mil pessoas, a grande maioria militares, vivendo na área. Os métodos de interrogatórios dos presos, conhecidos por violarem todas as normas de direitos humanos, não estão sujeitos a nenhuma fiscalização. Seria irônico, se não fosse trágico, ouvir justamente do governo dos EUA, mestre em violação dos direitos humanos, “exigências democráticas” do governo cubano para continuar as negociações visando o fim do embargo.
  6. A morte de Fidel nos enluta. Ele foi o grande líder da revolução cubana. Ousou enfrentar, a partir de uma pequena ilha caribenha, todo o vasto império do capital. Independentemente das críticas que temos à política do governo cubano, estas não podem ofuscar as conquistas da revolução. Há que se reconhecer as contradições no desenvolvimento ulterior da revolução. Mas a força criadora emanada da revolução ainda hoje pode ser sentida em Cuba. Seu povo, altivo e alegre, se orgulha das conquistas e celebra a revolução e nos anima à luta. Por isso devemos intensificar a solidariedade ao seu povo exigindo o fim do embargo e o fechamento da base militar de Guantánamo.

 

O papel atual desempenhado por China e Rússia na disputa imperialista

  1. Como já indicamos em outras oportunidades, a queda do aparato stalinista na URSS não significou um avanço no processo de construção do socialismo. Ao contrário, consolidou a restauração capitalista no Leste Europeu e na China, que hoje tentam se consolidar como alternativa imperialista ao imperialismo estadunidense. A diminuição no incrível crescimento chinês (que tem hoje taxas entre 6% e 7% ao ano) não significou que essa disputa tenha sido solucionada, pois ainda representa quase o dobro da média dos principais países da Europa e dos Estados Unidos.
  2. Os EUA seguem sendo a maior potência mundial em diversos indicadores, mas as taxas de crescimento da China e o protagonismo político-militar da Rússia não podem mais ser ignorados. Esses países são, respectivamente, o mais populoso e o mais extenso da Terra, e têm grandes interesses comuns. A China está se transformando na maior economia do mundo e a Rússia é uma grande potência energética e tem tecnologia bélica e espacial de ponta; ambos estão na aliança dos BRICS e têm direito de veto no Conselho de Segurança da ONU. São a 2ª e 6ª economias (PIB-PPP)[1] e a 2ª e 3ª potências militares. A Rússia tem enorme arsenal nuclear estratégico e tático e a China possui a maior força militar terrestre convencional. Suas economias se complementam e a extensão de suas fronteiras comuns permite realizar trocas comerciais com baixo custo e em segurança. A China dispõe de gigantescas reservas em ouro e divisas e é um grande credor dos países ocidentais. Além disso, ambas realizaram nos últimos anos diversos acordos de vulto nos setores, econômico, tecnológico, político e militar. Entre eles, está a “nova Rota da Seda”, que gerará grandes facilidades para o comércio entre a Ásia e Europa.
  3. A China, apesar de ser o país onde, provavelmente, nos dias atuais, existe o maior número de greves por melhores salários e condições de trabalho no mundo, mantém forte estabilidade política, o mesmo acontecendo com a Rússia, onde é forte a repressão a qualquer movimento reivindicatório e de oposição. Não podemos descartar de antemão que os conflitos inter-burgueses sejam coisa do passado, principalmente considerando a luta por recursos naturais.
  4. Não é por outro motivo que a aposta dos EUA para a construção de um ‘novo século americano’ neste sec. XXI passa pelo controle direto das áreas ricas em recursos naturais estratégicos, como o Oriente Médio e o norte da África, produtores de petróleo, e pela atualização de sua política de projeção de poder no centro da Eurásia.

 

A crise Síria, o dilema dos refugiados e o BREXIT sacodem a Europa

  1. A situação da Síria hoje é espaço para muita confusão e dificuldade de análises. Não existem informações plenamente confiáveis. Todas estão marcadas e filtradas pelas principais forças em disputa ou por discursos ideológicos de grupos de direita e esquerda no estrangeiro, a grande maioria sem nenhuma inserção dentro da Síria, sem base local consistente e fonte de informação confiável.
  2. Além disso, o palco dos conflitos tem sido muito dinâmico. Houve muitas mudanças de posição e realinhamento político desde o início das manifestações pacíficas, logo seguidas por confrontos armados. Tanto realinhamento de forças internas (com parte das forças democráticas à esquerda, que estavam na oposição e participaram das primeiras manifestações, e que depois do início da guerra optaram por um alinhamento com o governo, sob o argumento da defesa nacional contra o imperialismo dos EUA), como também realinhamento entre forças imperialistas e grupos que agem internamente (na oposição e no governo), assim também como entre os estados estrangeiros que estão intervindo no processo, e entre estes e o governo Assad.
  3. A situação atual da Síria é muito diferente, tanto de um período, já bem afastado no tempo, em que o governo de Hafez Al-Assad tomou medidas que podem ser consideradas progressivas, quanto daquela do início das manifestações oposicionistas de março de 2011, no clima da chamada “Primavera Árabe”, que tinham um sentido de defesa de direitos sociais e democráticos.
  4. A guerra civil na Síria, que desde 2011 dilacera o país, é uma das piores tragédias do século XXI. As cenas de prédios sendo destruídos, crianças sendo mortas, pessoas decapitadas, sítios históricos sendo destruídos, mulheres vendidas e escravizadas sexualmente, civis inocentes usados como escudo humano e hospitais sendo bombardeados são chocantes e infelizmente já parecem ter se tornado “normais”. Também a destruição imensa de todo tipo de unidade produtiva, grandes, médias e pequenas fábricas e oficinas e outros negócios, além de escolas e hospitais, destruição da produção agrícola e pecuária, e saque do petróleo, exportado ilegalmente para outros países da região que apoiam as forças terroristas e/ou ligados aos EUA e seus aliados regionais, em parte em troca de armas.
  5. Os números da catástrofe são dramáticos: mais de 300 mil mortos, cerca de 5 milhões de pessoas (quase ¼ da população total do país) deixaram a Síria em direção a outros países (principalmente Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Turquia) e 1 milhão destes migraram para a Europa, principalmente Alemanha, Suécia, Dinamarca e Sérvia. Mais de 10 milhões de sírios precisam de ajuda humanitária. Toda rede de infraestrutura (estradas, hospitais, habitações e etc.) está comprometida.
  6. De um lado, o governo ditatorial de Bashar Al-Assad, e de outro diversas “facções rebeldes”, na sua grande maioria exércitos de terroristas fundamentalistas, e supostos democratas burgueses e dissidentes do exército oficial. Bashar Al-Assad só se sustenta através da violenta repressão aos grupos opositores e graças ao apoio militar de Rússia, Irã e do Hezbollah libanês e, em menor medida, um apoio político e econômico da China. E os exércitos chamados de rebeldes só se mantêm com o apoio político, financeiro e militar, direto ou indireto, dos EUA, países da Europa, Reino da Arábia Saudita (KSA), Qatar e Turquia (até seu realinhamento recente com a Rússia) e burguesias e castas de outros países da região aliadas dos EUA, além de grupos mercenários de vários países.
  7. As estratégias estadunidenses na região parecem erráticas, pois respondem à lógica dos seus próprios interesses geopolíticos e econômicos. Antes de caçar e matar Saddam Hussein, os EUA foram seus aliados e financiadores na guerra contra o Irã. Antes de caçar e matar Osama Bin Laden, os EUA apoiaram, armaram e financiaram suas ações e as da Al-Queda na região. O mesmo aconteceu com o Estado Islâmico, armado pelos Estados Unidos.
  8. Não é por outro motivo que a aposta dos EUA para a construção de um ‘novo século americano’ neste século XXI passe pelo controle direto das áreas ricas em recursos naturais estratégicos, como o Oriente Médio e o norte da África, produtores de petróleo, e pela atualização de sua política de projeção de poder no centro da Eurásia. Essa política foi materializada na invasão e ocupação do Iraque (que provocou cerca de 500 mil mortos) e do Afeganistão, e na aplicação de uma política de apoio seletivo à insurgência árabe, tentando proteger seus aliados, como Hosni Mubarak no Egito (e respaldando o autoritarismo do novo governo), a dinastia teocrática na Arábia Saudita e a ditadura militar no Iêmen. Assim como desestabilizar aliados mais recentes, porém incômodos a países imperialistas, como o ditador Khadafi na Líbia, e aliados geoestratégicos da Rússia, como o regime ditatorial e antipopular de Bashar Al Assad na Síria, e apoiar o golpe de estado na Ucrânia para derrubar um governo pró Rússia.
  9. Um dos desdobramentos imediatos dessa política, a desestabilização e eventual derrubada do governo da Síria, abriria condições para isolar o Irã na região. Esse cenário recrudesceu as rivalidades interimperialistas EUA-Europa-Rússia-China na região. Outro elemento que agrega tensões ao conflito é o projeto de um trecho da ferrovia da “Nova Rota da Seda”, que corta territórios do Iran, Iraque, Síria e Turquia, e a rota marítima que pretende passar pelo Mar Vermelho e Canal de Suez.
  10. Se em algum momento o governo Sírio desempenhou um papel relativamente progressivo ao enfrentar o imperialismo estadunidense, isso se perdeu nas areias do deserto Sírio. Assad, que está no poder há 17 anos e herdou o poder de seu pai, que ficou no poder por 30 anos, hoje dedica-se única e exclusivamente a manter-se no poder a qualquer custo. Para isso, não hesita em desferir violentos massacres contra seu próprio povo.
  11. Denunciar esse genocídio não significa nenhum tipo de alinhamento à política imperialista estadunidense. Não podemos fazer coro com algumas correntes da esquerda brasileira que fazem uma política de “exigências” para que os EUA forneçam armas para os rebeldes. Os EUA já fazem isso e muito mais, ao financiarem grupos mercenários para defenderem seus interesses escusos na região.
  12. Ocorre que na origem da crise na Síria está uma legítima revolta contra um regime ditatorial. As forças em combate não se resumem à dicotômica e confortável disputa entre “bons” e “maus”, entre “imperialistas” e “anti-imperialistas”.
  13. O povo Sírio não merece nem a ditadura de Al-Assad, nem a ditadura de uma oposição terrorista e reacionária. Nem a tutela dos EUA nem da Rússia. Por outro lado, as forças realmente democráticas e de esquerda na Síria não têm condições políticas e muito menos militares de colocar sua própria alternativa de poder neste período. Além de pequenas, muitos de seus militantes ainda foram assassinados pelo governo Assad e pelas organizações terroristas fundamentalistas. Além disso, ainda estão divididas entre os que continuam na oposição e os que optaram por uma posição de aliança com os governantes. Ademais, não há sinais de possibilidade de resolução dessa situação pela via puramente militar. E o principal anseio da imensa maioria do povo sírio hoje é a paz.
  14. Nossa posição é de toda solidariedade ao povo Sírio e pelo seu pleno direito de autodeterminação. Assim, devemos ter clareza que a melhor alternativa para a crise na Síria é através da diplomacia e do multilateralismo. A isso deve ser agregada a necessidade da construção de um processo pacífico de transição do atual regime para uma república civil, democrática e laica, na qual o povo sírio seja protagonista de seu destino e artífice da construção de uma paz negociada na região – que crie melhores condições para uma retomada da luta e organização popular, acumulando forças para a construção de uma perspectiva verdadeiramente revolucionária.
  15. Que as ainda pequenas forças de esquerda e as experiências embrionários de participação política direta do povo, surgidas no início das manifestações de 2011, possam florescer, construir espaços de unidade e acumular forças com vistas à construção de uma alternativa de poder verdadeiramente popular, democrática e anti-imperialista.
  16. Além disso, existe também a questão do Curdistão. Povo com população de cerca de 30 milhões de habitantes que, desde o Tratado de Versalhes (1919), foi repartido pelas potências imperialistas entre seis estados, especialmente Síria, Iraque, Turquia e Iran. Os curdos têm uma longa, legítima e histórica luta, política e militar, por sua independência e constituição de um estado soberano. E, dentro de todo esse território conflituoso, é onde se construíram importantes e enraizadas forças democráticas, de esquerda, republicanas e laicas em luta contra os estados que os oprimem nacionalmente. Entretanto, diante da crise regional, os EUA e a Rússia também têm se aproveitado para construir relações com algumas forças político-militares da região, buscando colocá-las sob sua influência.
  17. A postura diante da questão dos refugiados, onde prevalece uma posição xenófoba, divide a Europa. As eleições no continente têm sido profundamente influenciadas por esse componente. Evidente que não se trata apenas de uma questão conceitual sobre a justeza ou não de abrigar refugiados. A combinação da crise econômica, marcada pela crescente onda de retirada de direitos históricos da classe trabalhadora europeia e o desemprego (que recuou um pouco, mas ainda está na casa dos 10% ou 21 milhões de pessoas), confere a esse debate um caráter explosivo. Num momento de crise e de chegada incessante de refugiados, “fechemos as fronteiras e protejamos nossos empregos”. Essas são as razões objetivas para o crescimento desse sentimento xenófobo.
  18. Outro evento importante tem abalado o velho continente: a vitória, através de plebiscito realizado em junho de 2016, do Brexit (abreviação das palavras em inglêsBritain -Grã-Bretanha e exit -saída). Na prática significa a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), composta por 28 países. Na história da UE nunca aconteceu de um país sair do bloco, mas, contrariando todas as previsões, prevaleceu o sentimento de retirada. O plebiscito tinha sido uma promessa de campanha do primeiro ministro James Cameron, que renunciou ao cargo logo após o resultado.
  19. As consequências dessa decisão, que haverá de ser aplicada paulatinamente, ainda não estão totalmente desenhadas. O Brexit recebeu 51,9% dos votos, enquanto 48,1% votaram pela permanência no bloco. O interior da Inglaterra e o país de Gales apoiaram majoritariamente a saída, enquanto Londres, Escócia e Irlanda do Norte optaram em sua maioria pela permanência. Votaram cerca de 30 milhões de pessoas, o que corresponde a 71,8% dos eleitores aptos a votar. A campanha, que ficou extremamente polarizada, chegou ao extremo de ter uma deputada, defensora da permanência, assassinada por causa de seu posicionamento. O discurso xenófobo, pelo fechamento de fronteiras para impedir que o Reino Unido receba imigrantes do Norte da África e Oriente Médio, centralizou a propagada pró-Brexit e catapultou o líder da extrema-direita, Nigel Farage, ao estrelato político.
  20. A vitória do Brexit é reflexo da crise econômica, principalmente de um processo de desindustrialização da Grã-Bretanha, de corte de benefícios sociais e direitos trabalhistas e do crescimento da xenofobia nesses setores mais prejudicados pela crise, como se os refugiados e imigrantes ilegais fossem os culpados pela perda dos empregos. Uma das propagandas pela saída da UE propunha: “Lets Make Britain Great Again”, ou “vamos fazer a Bretanha grande novamente”, numa clara alusão à crise vivida pela União Europeia, e que a Inglaterra, que teria condições de andar com suas próprias pernas, deve pensar primeiro em si. E que deveria fechar as fronteiras, não recebendo mais os refugiados, como é obrigação dos países da EU pelo acordo, patrocinado pela Alemanha, de recepção de cotas de refugiados. Outro slogan criticava o fato de que a Inglaterra supostamente transfere 350 milhões de euros à UE por semana, e que esses recursos poderiam ser empregados para melhorar a qualidade de vida da Grã Bretanha e não para socorrer países como a Grécia. O centro financeiro de Londres, conhecido como “City”, funciona como um polo internacional de bancos, serviços de investimentos, mercados de capitais da EU, que tem um considerável mercado de 500 milhões de consumidores. Com o Brexit, a City não tem ainda substituto à vista e esse volumoso mercado tende a definhar. Apesar de integrar a EU, o Reino Unido não fazia parte da zona do Euro. Nos 43 anos em que integra o bloco, nunca deixou de usar sua moeda local, a Libra Esterlina. Em razão disso, não sofria automaticamente com as medidas monetárias e de austeridade adotadas pelo Banco Central Europeu (BCE). Outra grave consequência é a provável taxação das exportações britânicas para a EU – 70% de seu comércio exterior – com alíquota de produtos estrangeiros, reduzindo muito sua competitividade e gerando desemprego. Em função disso, a Primeira Ministra Thereza May já procura construir acordo bilateral minimamente vantajoso com os EUA, onde esteve recentemente, esbarrando na barreira do “America First” de Donald Trump.
  21. O fato é que a existência do Reino Unido, bem como da própria União Europeia, está ameaçada. Já há movimentações no sentido de realizar referendos na Irlanda e na Escócia para decidir sobre a permanência no Reino Unido. É inegável que o Brexit fragiliza o projeto de consolidação de um bloco continental e coloca em questão o processo da globalização imperialista e sua “quebra de fronteiras” a partir dos próprios países centrais, como Europa e EUA. E note-se que o PIB da EU (segundo os critérios do FMI) é o segundo maior do mundo, atrás apenas dos EUA.
  22. Os setores ultranacionalistas e de extrema direita estão, como já era de se esperar, tratando de capitalizar o resultado do plebiscito. O discurso protecionista, xenófobo e ultranacionalista é similar ao de Marine Le Pen (que foi derrotada, por um candidato da direita liberal no segundo turno na França), dos grupos neonazistas na Alemanha, da Holanda, de Norbert Hofer na Áustria e do próprio Trump nos EUA.

 

Os EUA sob o signo da era Trump

  1. Contrariando as previsões dos principais institutos de pesquisa, o magnata Donald Trump venceu as prévias do Partido Republicano e, mais surpreendente ainda, derrotou Hilary Clinton na corrida à Casa Branca. Uma figura grotesca e caricata, que inspirava risos no início da corrida presidencial, está no governo da maior potência imperialista do planeta. As consequências desse cataclismo ainda não estão todas definidas, mas Trump tem mantido, ao menos parcialmente, sua heterodoxa plataforma de campanha. Ainda que possa haver alguma diferença de comportamento entre o candidato Trump e o presidente Trump, ele está implementando itens programáticos que o alçaram à presidência, como a insistência no muro na fronteira com o México, que causou grave crise diplomática, e a medida de proibição de entrada de imigrantes de sete países com maioria muçulmana, que gerou enormes protestos nos aeroportos do país inteiro e foi suspensa por um juiz de Seattle.
  2. O sistema eleitoral americano, em que o voto popular elege um colégio eleitoral, permite distorções significativas. Com o fechamento da apuração, que varia de estado para estado, Hilary teve cerca de dois milhões de votos a mais que Trump, que assegurou sua vitória através do colégio eleitoral. Isso significa que Trump foi eleito sem o apoio da maioria da população estadunidense, que não referenda suas políticas. As pesquisas feitas após suas primeiras decisões políticas confirmaram rejeição da maioria ao seu governo. Além disso, ele foi o presidente republicano com menos percentual de votos desde Nixon.
  3. Todas as análises identificam que a votação de Trump se baseou em amplos setores de eleitores brancos das regiões rurais, de pequenos proprietários, de trabalhadores urbanos afetados pelo endurecimento da crise em 2008 (que permanece) e de áreas como o “Rust Belt”, ou “cinturão da ferrugem”. Essa denominação é uma alusão irônica ao cinturão da indústria, o“Manufacturing Belt”, ou “cinturão da indústria”, que compreende a mais antiga e extensa área de indústrias dos Estados Unidos, e que inclui Pensilvânia, Virgínia Ocidental, Ohio, Indiana e Michigan. Essa região concentrava, há alguns anos, indústrias do ramo siderúrgico, mecânico, metalúrgico (automobilístico), petroquímico, alimentício e têxtil.
  4. Ele conseguiu galvanizar a revolta dos segmentos que experimentaram algum grau de precarização e empobrecimento em razão da crise econômica, que permanece. O discurso foi marcado pelo nacionalismo, com promessas de protecionismo; pelo racismo e pela xenofobia, na medida em criminaliza imigrantes (principalmente latino-americanos e mulçumanos); também é machista, na medida em que ridiculariza e menospreza o papel da mulher no protagonismo social e político, e lgbtfóbico, pois não reconhece vários direitos conquistados pela comunidade LGBT.
  5. Seu discurso incorporou ainda o estigma da “anti-política”. Definia-se como um não político, como um empresário que não precisa da política para viver e que, portanto, estará “imune” à corrupção.
  6. A crítica à vitória de Trump não pode ser compreendida como uma defesa da candidatura de Hilary Clinton, que na prática sempre foi de direita e neoliberal até a medula dos ossos. O Partido Verde, por sua vez, obteve cerca de 1% dos votos, e o Partido Libertário, de direita ultra liberal, uns 3%.
  7. Bernie Sanders, que disputou as prévias do Partido Democrata com Hilary, conseguiu arregimentar setores à esquerda, descontentes com a crise e que poderiam oxigenar a política norte-americana. Mas sua derrota nas prévias e seu posterior apoio a Hilary significaram um revés ao que de mais progressivo apareceu nessa campanha. É notório que a candidata democrata não conseguiu atrair os jovens que votaram em Sanders e nem parte significativa da comunidade negra, como o movimento “Black Lives matter” ou “vidas negras importam”, que apoiaram Obama.
  8. Os movimentos de Trump no tabuleiro da política interna e mundial têm gerado impactos dramáticos. A repercussão mundial, após o estarrecimento, foi de repulsa e crítica. É improvável que ele abandone a xenofobia, o protecionismo e o preconceito com as minorias raciais e de gênero. A extinção do já precário seguro de saúde “Obamacare”, o ataque gratuito de misseis a um aeroporto da Síria, as ameaças de mobilizações militares em torno da Coreia do Norte, o estímulo à indústria bélica e corrida armamentista são exemplos de suas ações. E ainda houve o escândalo de sua tentativa de bloquear as investigações do FBI às suas obscuras relações com o sistema de informações da Rússia para se favorecer durante a campanha eleitoral, com a demissão do chefe da polícia federal dos EUA, resultando em pedido de impeachment contra seu mandato. Enfim, com a eleição de Donald Trump abriu-se uma nova tendência da conduta estadunidense na arena global. Agora, Trump volta-se para uma agenda distinta, desfazendo acordos de blocos comerciais e, mais recentemente, retirando os EUA do Acordo de Paris, que versa sobre as mudanças climáticas. Pretende retomar a industrialização estadunidense, desfazendo-se daquilo que considera entraves para esse objetivo. Essa é uma tendência que pode se consolidar ou sucumbir ante as pressões internas e externas. De qualquer sorte, essa guinada joga água no moinho da instabilidade econômica, política, social e ambiental pela qual o mundo passa.
  9. Os ventos que sopram do norte, por um lado, não são nada auspiciosos. Por outro lado, já está gerando um processo de resistência popular iniciado logo na posse de Trump e no dia seguinte, com manifestações de mais de um milhão de mulheres, que tomaram as ruas das cidades mais importantes dos EUA e assumiram a frente da construção de uma oposição, com importantes marcas de esquerda, aos seus ataques aos direitos civis nos EUA.

 

Ousar lutar. Ousar vencer

  1. O Brexit e a vitória de Trump mostram os impasses da globalização imperialista neste momento da crise estrutural do capitalismo. Evidenciam também as contradições entre a tendência universal do capital de se expandir e romper fronteiras e os interesses de parcela das burguesias nacionais e burocracias estatais, que buscam reforçar bases políticas, estatais e territoriais, próprias.
  2. O pano de fundo, além da crise mundial e da decadência econômica relativa dos EUA, é a emergência da China, o que divide o grande capital estadunidense (e mundial), assim como suas elites políticas e militares sobre os caminhos a seguir para enfrentar essa nova situação. A China, por outro lado, vem procurando, em aliança com a Rússia, além de manter sua ofensiva econômica e avanços tecnológicos, reforçar sua capacidade militar de dissuasão, especialmente aeroespacial, marítima e de tecnologias de informação.
  3. A situação mundial se polariza. De um lado a burguesia, que não é um bloco monolítico (ao contrário, experimenta processos autofágicos para se manter no poder), demonstra toda sua capacidade de inovação e de perversidade. O inédito grau de concentração de renda revela uma classe sedenta e sem pudores: fará o que for necessário para manter o sistema capitalista, mesmo que isso signifique colocar toda a humanidade em risco. Do outro lado, a classe trabalhadora demonstra que, apesar das novas configurações do mundo do trabalho, não está disposta a se acomodar. Deixar de lutar não é uma opção. Isso se manifesta através de novos movimentos e correntes políticas presentes nos movimentos sociais, assim como as tradicionais estruturas sindicais, que, além de mobilizações e greves, também têm começado a ocupar um novo espaço eleitoral (como na Espanha, Grécia, França e o próprio Bernie Sanders nos EUA), mesmo que ainda sem uma linha programática e estratégica efetivamente socialista e revolucionária. A resistência aos ataques da burguesia não é uma ação coordenada pelos revolucionários; é uma medida de autodefesa de sua integridade como classe. Cabe aos revolucionários interpretar e intervir nesse processo para que avance a consciência de classe dos trabalhadores e trabalhadoras.
  4. Essa talvez seja a grande tarefa do período: ganhar a consciência da classe trabalhadora mundial. As muitas lutas que estão sendo travadas pelo povo e pelos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo ainda não são compreendidas como uma totalidade. Enquanto perdurar essa alienação, essa fragmentação e falta de visão totalizante, não avançaremos de forma consequente. Enquanto o povo ainda depositar esperanças de que é através da via eleitoral que sua vida vai se resolver, não avançaremos de verdade. As lutas pelo direito à vida, à saúde, educação, salário, moradia e trabalho são indispensáveis, mas são insuficientes para a revolução. É preciso demonstrar que enquanto perdurar esse sistema capitalista nunca poderemos viver em paz e com dignidade. Sempre haveremos de estar lutando para sobreviver.
  5. Permanece mais atual que nunca a tarefa de transformar a classe trabalhadora de classe em si para classe para si. E isso só será possível se travarmos, em cada luta contra a exploração econômica, as opressões culturais, a dominação política e a opressão e dependência nacional, uma batalha pela conscientização política dos trabalhadores e de todo o povo oprimido. Nessa jornada, cabe aos revolucionários construir as ferramentas sociais, culturais e político-partidárias necessárias à revolução socialista em cada país e em nível internacional.

 

Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!

Ousando Lutar, Venceremos!

Ação Popular Socialista –APS/PSOL

CNAPS, 03 e 04 de junho de 2017

[1] Avaliação do PIB baseado na Paridade do Poder de Compre (PPP em inglês), que reflete de modo mais realista a economia de um país do que a partir do PIB Nominal baseado na taxa de câmbio do dólar no mercado.

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